Saber amar
Hoje acordei, sem o alarme do despertador soar e encontrava-me precisamente na mesma posição em que adormecera. Aconchegada aos meus únicos fiéis companheiros da noite, debaixo das cobertas cheias de alegria. Só podiam ser cobertas de alegria para me levantar, ainda com andar relutante, assim que acordei. Dirigi-me à cozinha, desejosa de um saboroso sumo natural de Laranja. Abracei a minha mãe, que corria contra o tempo e tomámos o pequeno-almoço quase juntas. Depois de uma barriguinha satisfeita, um corpo cheiroso e um olhar desperto, abracei o meu pai e saí de casa. O dia não foi nada de espectacular, mas já não dormia tão bem, talvez desde aquela noite nas férias do verão, naquele sofá de verga que me acolheu como em tantas outras noites. Senti-me bem durante todo o dia e se num dia habitual teria chegado a casa com dores de cabeça, pelo comprido dia, cheio de tudo e de nada, hoje sentia-me com energia. Sentia-me com energia porque dormi sem pensar e sem sonhar. Sem me esgotar e sem desejar. Sem especular e sem expectar. Simplesmente dormi. E que bem que me soube. Houve um momento nesta tarde, a primeira tarde primaveril de 2015, em que senti o vento beijar-me a cara e acariciar-me o cabelo. E um cheiro avizinhou-se-me, conduzindo-me por uma estrada que não percorro faz alguns anos, de mão dada, com alguém que me sabia beijar com a mesma ternura com que me acariciava o cabelo. E foi então que um arrepio me percorreu um e outro ante-braço, não sei dizer se foi o toque eléctrico que ele costumava exercer sobre mim, se foi o vento que me penetrou o casaco apertado até cima e se fez sentir quente. O Sol estava a pôr-se e massajava-me as pernas e o pescoço do seu jeito único. Sorri instantaneamente quando percebi que acabara de chegar ao meu destino citadino a reparar nas flores de laranjeira que habitavam na única vivenda daquela estrada enquanto ele se aproximava com a papoila mais linda que já vira. Olhei à volta e só via árvores tristes das quais nem sei o nome e um tapete de relva mal cuidado. Mas pouco me importava, porque por momentos, estive naquela estrada colorida de mão dada com alguém que coloria igualmente a minha vida. Foi um bom pôr-do-sol, com a cabeça encostada ao ombro dele a cheirar aquele vermelho vivo lindo.
Não sinto falta, mas tenho saudades da leveza da idade e da ingenuidade.


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