Super Mulher

Por vezes a vida escorre-se-nos por entre os dedos. Muitas vezes temos certezas absolutas de posse e segurança e de um momento para o outro tudo muda e parece que o mundo se vira ao contrário e não temos mais o chão para nos amparar. É depois de ultrapassarmos estas crises e fazermos o luto, que conseguimos começar uma nova etapa e tentar fazer sempre o melhor, para nunca mais deixarmos nada por dizer. O amor é a base da vida. Ninguém sobrevive e muito menos vive, sem amor! E quem melhor que a família para nos fazer sorrir de orgulho, de amor, de coração quente e de alívio por saber que são eles que vão lá estar sempre, para nos amparar e dividir a nossa dor, para que não carreguemos esse peso sozinhos?
Ao longo da nossa vida vamos construindo uma outra família, igualmente importante, uma família que nós podemos escolher. E mais tarde, escolhemos a pessoa a quem confiaríamos a nossa vida e por quem, muito provavelmente, daríamos a vida. Mas há que ter ciente que se conseguimos amar um outro alguém e dar-nos por completo a essa pessoa, é porque fizemos um bom vínculo com a nossa mãe, outrora. Isto significa que ela nos soube dar segurança, força e confiança para sairmos para o mundo e sermos bem sucedidos. Significa que esteve lá sempre que precisámos para nos dar a mão e amor. Pois é, se conseguimos entrar num compromisso sério e seguro, é porque sentimos segurança e as costas quentes.

Por esta razão que acabo de mencionar e todas as outras que toda a gente sabe, mas que farei questão de esclarecer mais adiante, acho injusto quando esquecemos esse porto seguro que estará lá para nós até ao fim da sua vida. Aliás, não é somente injusto como altamente egoísta! Por isso pensem duas vezes antes de magoarem a pessoa que fez de vocês uma pessoa capaz de sobreviver neste mundo de piranhas!
Porque a tua mãe tinha o maior coração que já vi, sempre pronta para ajudar os seus, fosse em que condições fosse. Sempre deu tudo de si e sempre amou com todo o coração. Punha amor em cada bacalhau com natas que fazia, em cada travessa de bifinhos de cebolada, em cada perna de perú assada, em cada açorda, em cada mousse, em cada leite creme e em cada amigo. Punha amor em cada vestido de noiva, em cada maillot, em cada colcha, em cada malinha, em cada brinquedo que fazia para os seus netos queridos do coração. Punha amor em todos os beijos que dava, em todo o colinho bom que nos envolvia de quando em vez, em cada aconchego de boa noite, em cada passada apressada e determinada. Sempre a zelar pelos filhos e pelos netos, sempre a desejar o melhor e a preocupar-se a cada momento pelo bem-estar e alegria dos seus. Sofria tanto, sempre que um de nós estava em sofrimento, fez promessas por nós, pelo nosso bem, pelas nossas batalhas. Pelo nosso sucesso académico, profissional e até amoroso. Lá com as suas manias e antiguidades, mas sempre com tanto amor e orgulho. Tinha os seus ideais e os seus limites, mas sempre amou os seus e lhes deu TUDO! No fundo, só queria que estivéssemos em segurança e soubéssemos respeitar o próximo sem nunca nos esquecermos de nós próprios. Com mais 55 anos que eu e lá subia ela as escadas à minha frente sem ter de parar para recuperar o fôlego. Era uma mulher de armas e bagagens! Sabia rir-se com os outros e sabia rir-se de si mesma. Era a pessoa mais culta que eu já conheci, a um nível de ganhar sem hesitações qualquer programa televisivo desse género. Que orgulho! Pena não ter tido a coragem de a inscrever clandestinamente, pois ela ganharia o prémio máximo com certeza absoluta e aí poderia ir conhecer o mundo e continuar a cultivar-se e a aproveitar cada canto do mundo com o máximo de entusiasmo. No entanto tenho a certeza que os filhos seriam a sua prioridade, como sempre! Perdeu a sua alma gémea relativamente cedo e nunca desistiu ou vacilou. Nunca baixou os braços nem pediu nada a ninguém. Nunca se deixou intimidar pela solidão, pois estava cheia de amigos que a amavam por tudo o que ela sempre foi. Porque colhemos o que semeamos. E no dia em que nos deixou, só vi um jardim cheio de flores lindas e radiosas a chorarem a sua falta, o seu cuidado e o seu amor.
Sempre com orgulho nos seus rebentos e nos seus netos, de um modo que até me envergonhava por sentir que ela acreditava mais em mim do que eu própria. Sempre a vangloriar-se dos nossos feitos, com orgulho e de peito cheio! E sabia tão bem quando nos congratular ou quando nos repreender! E que bem. Tenho tantas saudades avó!

E quem não ama esta mulher, deve ser cego. Porque ninguém é perfeito, mas as nossas imperfeições completam-nos! E ela era completa e cheia de vida e amor. Cheia de tempo para ajudar. E deixou cada um de nós cheios de saudades! Porque faz falta todos os dias! Era uma grande mulher, uma grande mãe, uma grande avó! E é insubstituível! E quem não a defende perante insultos enganados, então não merecia todo o amor que ela dava de coração. E mesmo assim, ela dava!!!!!

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