Dia 21

Um texto que já tenha escrito há algum tempo e não o tenha publicado:


"Hoje senti a sua falta. Cheguei a casa para jantar e tinha um bilhete no fridge “O jantar está no forno, devo chegar tarde. Amo-te pequena”. A mesa estava posta e o meu vinho preferido em cima da mesma, por abrir. Enchi um copo e bebi-o, acompanhado de um dos cigarros dele. Aquele momento soube-me bem. O jantar estava aprazível, como sempre aliás. Fui aninhar-me no sofá individual, para não sentir tanto a sua falta, com o comando da televisão na mão. Não sabia se havia de me cultivar ou simplesmente escutar as melodiosas músicas por ele escolhidas. Acabei por ligar a televisão no 2º canal, estava a passar paisagens maravilhosas do nosso país. Enquanto fantasiava as nossas próximas férias num daqueles locais, puxei d’outro cigarro. A garrafa de vinho estava no fim. Saboreei aquele cigarro de forma quase ofensiva e pousei o copo de vinho vazio, no nosso chão refrescante, de forma um tanto ao quanto sensual. Queria tanto que ele aqui estivesse comigo, a desfrutar deste meu momento selvagem que o deixa sempre animadamente desinquieto. Maldito trabalho! Às vezes aquela empresa parece quase a sua amante e o problema é que eu a conheço bem e não tenho como ganhar uma maldita batalha com ela. Estavam a fazer-me falta as suas piadas e a sua constante atenção.
Sinto-me uma idiota, ainda não tive coragem para lhe dizer que já me sinto preparada. Quero finalmente dar o passo em frente. Quero deixar de fumar, quero deixar de tomar a pílula, quero deixar de beber; mas estas suas ausências deixam-me insegura.
Estava quase a adormecer enquanto sonhava com o quarto de bebé perfeito, quando ouço a fechadura da porta. Não sei bem porque o fiz, mas fingi ter adormecido ali, como nos tempos em que estudávamos. Acho que no fundo foi para ‘observar’ a sua reacção.
Sentia a sua presença, ali diante de mim, a observar-me sem me tocar. Queria ter visto a sua expressão, queria ter lido o seu olhar. Um toque suave percorreu o meu braço, um toque que me fez estremecer de saudade. De seguida um beijo no pescoço e um sussurro sensual ao meu ouvido “Amo-te desde o dia em que me apontaste o dedo furiosamente meu amor”. Queria saltar-lhe para os braços e dizer-lhe o quanto o desejava, mas não teria como explicar-lhe tamanha infantil atitude. Senti o aconchego da nossa manta predilecta e ouvi o arrastar do copo de pé alto que havia deixado ali no chão, seguido dos seus passos silenciosos a afastarem-se calmamente. Naquele momento percebi, percebi que jamais o perderia."

Comentários

  1. Adorei.

    Porque é que todos fazemos isso? Falar ao Ouvido quando ela está a dormir?

    Ps: Lembra-te Violeta de como apareceu a Violeta. Não faças o mesmo ;)

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Comenta aqui *.*

Mensagens populares deste blogue

Ónus

Estou à tua espera

Virar a página